O homem mais arrogante do Brasil deu uma entrevista pra versão nacional da revista Rolling Stone. Eu transcrevo aqui boa parte da entrevista, extraída do Blogildo.
Esse homem, segundo constam algumas fontes, é tido atualmente como o maior lobista do Brasil. Com a enorme amizade e influência que ainda exerce sobre o Lula , dizem que tem até participação na TAM e foi responsável pela quase-quebra da Varig. Isso é tudo especulação, mas uma coisa é certa: ainda é o homem mais arrogante do Brasil.
Leia a entrevista completa e também seleciono aqui algumas partes polêmicas:
“Não sou dirigente, não sou mais deputado, não sou mais ministro, mas sou o Zé Dirceu”.
“Não interessa a opinião de Cristovam Buarque”.
“A câmara fez um excelente trabalho nesses quatro anos”.
“Eu não quero dar opinião sobre o Gabeira”.
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ENTREVISTA COMPLETA:
Sobre hostilidades.
Soares: E se fossemos almoçar agora em algum lugar, você acha que as pessoas iriam hostilizá-lo?
Dirceu: Não, agora não, já houve isso, principalmente na fase da campanha eleitoral. Mas ali também tinha aquela coisa do antilulismo, não era só eu. Muitos dirigentes e parlamentares do PT foram hostilizados durante a campanha eleitoral, não era só comigo. Criou-se um clima de violência contra nós, que refletia contra mim também. Mas tem de se levar em conta também que eu sou mais conhecido que a média dos dirigentes e parlamentares do PT, talvez eu ainda esteja entre os cinco, dez petistas mais conhecidos do Brasil. Se eu caminhar numa praia, por exemplo, no Rio de Janeiro, umas 40, 50 pessoas vão me cumprimentar, cinco vão me repudiar, mas sai a notícia no jornal, só dos que me repudiaram. Por exemplo, eu fui com amigos recentemente em um restaurante famoso no Leblon e teve gente que me cumprimentou e chorou, teve gente que falou de 1968, jovens quiseram tirar fotos, teve gente que veio me abraçar. Eu saí e tinha uma mesa de yuppies, executivos, que bateram palmas pra mim, mas de maneira debochada. E essa foi a notícia que saiu. Tem também uma mistura de preconceito contra mineiro, contra paulista, tinha gente que falava do meu sotaque. Tem coisa de classe também, muita gente elitista e nós não viemos da elite. A elite não nos aceita, não nos quer e faz tudo pra nos tirar do poder, a verdade é essa. E tens uns que realmente acreditam que eu sou corrupto.
Sobre o salário dos parlamentares.
Costa Netto: E esse abuso de poder dos parlamentares em aumentar em absurdos 90,7% os próprios salários no final de 2006? Como você vê isso?
Dirceu: A Câmara, no limite, poderia reajustar o salário dos deputados pela inflação de quatro anos – no limite! Foi a pior coisa que poderia ter acontecido para a Câmara porque ela fez um excelente trabalho nestes quatro anos. Mesmo que você leve em conta que houve as CPIs dos Bingos, dos Correios, do Mensalão, dos Sanguessugas, entre outras, se você analisar as últimas três semanas de dezembro a Câmara aprovou o Estatuto de Pequena e Média Empresa, a Súmula Vinculante, a repercussão geral, que é fundamental na reforma do Judiciário, Fundeb…só isso já vale um ano de trabalho em qualquer parlamento do mundo. Isso é importantíssimo, é assim que se muda o Brasil. Mas tudo o que a Câmara aprovou nestes quatro anos cai por terra e mistura tudo. É ruim, é pior.
Costa Netto: Mas é esse o trabalho deles, não estão fazendo mais que a obrigação.
Dirceu: Não, não é assim. Tem parlamento que passa anos sem aprovar nada. Tem que levar em conta que esta legislatura foi importantíssima pro Brasil se você fizer um balanço dela, mesmo com todos os defeitos e problemas que o parlamento tem. O agravante disso é que cria um preconceito grande. Eu vejo comentaristas e articulistas na televisão, no rádio e na imprensa falando contra a verba de gabinete, contra a verba indenizatória, contra a verba de passagem, contra a verba de habitação, contra a verba de material, de correio, telefone, material de escritório. Isso não dá pra aceitar. É a mesma coisa que perguntar pra esses mesmos comentaristas se eles pagam o telefone que eles usam no trabalho, se eles pagam a viagem quando viajam a serviço.
Costa Netto: Mas os deputados têm até 15.o salário, ora…
Dirceu: Isso é outra coisa, então acaba com o 15.o!
Costa Netto: É uma classe extremamente privilegiada: somando toda a verba mensal de um deputado federal são mais de R$ 102 mil por mês!
Dirceu: Mas não tem razão para misturar as coisas! Então fecha o Parlamento! Se o deputado não pode ter estrutura para trabalhar! O salário de um deputado hoje [dez, 2006], se não me engano, é de R$ 12, 5 mil. Você tira imposto de renda, tira tudo, vai dar R$ 8 mil. Se ele for pagar passagem, pagar para morar em Brasília, for pagar os telefonemas que ele dá, for pagar o material que ele usa, for pagar os funcionários e as despesas dele no Estado não tem deputado! Só vai ser deputado quem tiver poder econômico, quem tem renda. Então não tem sentido.
O salário do deputado foi criado para o parlamento ficar independente, vamos lembrar a imunidade parlamentar e o pagamento do parlamentar. Eu quero separar as coisas: tudo bem, não pode dar aumento de 91%, a sociedade tem razão, mas não vamos misturar com verba de gabinete, com verba indenizatória. Eu acho um absurdo um ministro ganhar R$ 8 mil reais. “Ah, mas o salário é alto…” Então, os executivos, os engenheiros, os advogados, os donos de empresa não podem ganhar também! Os jornalistas não podem ganhar, porque tem uma elite de jornalistas que ganham entre R$ 50 mil e R$ 200 mil por mês. Não adianta comparar com o salário mínimo – isso é outra coisa que precisa melhorar. Tem que fazer a crítica dura, não aceitar e tentar revogar. Agora, não pode desqualificar o parlamento.
Sobre Cristovam Buarque e a educação.
Soares: O ex-ministro Cristovam Buarque disse que vocês tiveram oportunidades históricas e nada fizeram. Ele disse textualmente que o governo Lula se acovardou diante da questão da educação. Você não acha que vocês fizeram pouco pela educação?
Dirceu: Fizemos pouco? Primeiro, o Cristovam Buarque foi ministro da Educação, então ele tem responsabilidade. Segundo, não interessa a opinião de Cristovam Buarque, interessa a opinião do povo, que votou, e a avaliação que o governo tem na área de educação. Primeiro, Fundeb, que está aprovado, estava para ser aprovado há dez, 15 anos é uma revolução no ensino médio do país, que vai universalizar o ensino em cinco, dez anos, como é o ensino fundamental. Segundo, a expansão do ensino universitário que estava caindo no Brasil. Terceiro, o Prouni. Nós vamos ter agora um sistema de formação de professores, de avaliação por aula-Brasil de aluno por aluno, e temos mais de R$ 20 bilhões em três anos para investir na educação. O governo Lula fez muito pela educação em quatro anos nas circunstâncias em que ele pegou o Brasil. Porque não adianta você chegar para o governo, para o presidente, e apresentar dois, três projetos que custam R$ 8 bilhões, R$ 12 bilhões. Que foi o que o Cristovam Buarque fez; alguns eram inconstitucionais, outros não tinham a aprovação do governo. Depois sai dizendo que o governo não quis aceitar a proposta dele e não fez uma revolução educacional. Ele governou Brasília, não governou? Se ele olhar o governo Lula pelo parâmetro com que ele governou Brasília, ele vai ver que o governo Lula foi muito melhor que o governo dele. Ele não fez uma revolução educacional em Brasília.
Sobre seus erros.
Soares: Quais foram seus grandes erros?
Dirceu: No primeiro mandato do presidente Lula nós subestimamos o papel que a mídia teria contra o governo e não nos preparamos para enfrentar isso. No primeiro mandato o governo priorizou a estabilidae e desequilibrou com o desenvolvimento. Nós, que éramos dirigentes do PT, demos as costas para o PT e fomos cuidar do governo. Isso custou caro para nós. Nós deveriámos ter conseguido uma maior mobilização social, um maior diálogo com os movimentos sociais, a gente tem muita responsabilidade com os movimentos sociais. Mas o governo tem grande acertos. A estabilidade resolveu a inflação, valorizou o salário, garantiu a criação de 5 milhões de empregos, devolveu ao Brasil credibilidade externa, saneou as contas externas do país, possibilitou que o governo priorizasse o social com sucesso.
Sobre Gabeira.
Soares: E qual é a sua opinião sobre ele, que sai como o grande ícone do politicamente correto, um sinônimo da ética e da correção desta legislatura?
Dirceu: Eu não quero dar opinião sobre ele.
Cruz: Como é hoje não ter o mesmo poder que você tinha antes no governo?
Dirceu: Não sou dirigente, não sou mais deputado, não sou mais ministro, mas eu sou o Zé Dirceu.